segunda-feira, 9 de abril de 2012

RETRATO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL: da creche a universidade.


A escola tem o dever imprescindível, essencialmente com os menos favorecidos,
de romper horizontes. (Roberta Monique)


No contexto atual, espera-se que instituições de ensino e educadores ajudem os educandos a aprender a pensar, a refletir, a adquirir estruturas mentais para a aprendizagem autônoma e a dominar os conceitos científicos básicos das diferentes áreas do conhecimento.
Os sistemas de ensino universalizaram o acesso, mas na prática continuam excluindo indivíduos e grupos considerados fora dos padrões homogeneizadores da escola. Assim, sob formas distintas, a exclusão tem apresentado características comuns nos processos de segregação e integração que pressupõe a seleção e naturalização do fracasso escolar.
Estatísticas demonstram que um futuro pouco promissor aguarda milhões de crianças e jovens brasileiros que chegam a 4º série do ensino fundamental sem sequer saber ler e escrever.  Este triste levantamento aponta ainda que muitos desses meninos e meninas não concluirão o ensino fundamental. Por que as escolas têm fracassado?  A quem interessa manter o país na ignorância?
Com certeza aqueles que se beneficiam dessa ignorância e querem a manutenção do status co na sociedade. Educar um povo é libertá-los das amarras e dos grilhões; é dar dignidade no lugar de caridade.
Segundo o ponto de vista burguês não há para classe trabalhadora a exigência ou a necessidade de uma escola de qualidade.  A escola para o proletariado é um grande faz de conta: o Governo faz de conta que oferece educação, os professores fazem de conta que ensinam e os alunos fazem de conta que aprendem. Os resultados revelam essa grande farsa: O Brasil manteve a mesma posição do ano passado e ficou no 88º lugar de 127 no ranking de educação feito pela UNESCO, o braço da ONU para a cultura e educação, o país ficou atrás de países como Argentina, Chile e até mesmo Equador e Bolívia.
A Educação é o melhor investimento. A chave para o desenvolvimento de um país passa pela formação do capital social. Só investindo nas pessoas é que poderemos corrigir a flagrante desigualdade social em que vivemos e construir nossa capacidade produtiva do amanhã.
Para tornar efetivo o processo educativo, é preciso dar-lhe uma orientação sobre as finalidades e os meios de sua realização, conforme opções que se façam quanto ao tipo de homem que se deseja formar e o tipo de sociedade a que se aspira.
A escola é uma organização que, como muitas outras, lida com pessoas. Sua peculiaridade está em ser a primeira instituição que os cidadãos, ainda crianças, conhecem depois da família. Mais ainda, uma instituição que, em complemento às famílias, tem a missão de educar. A experiência na escola pode desenvolver ou não os sentimentos de confiança e satisfação de pertencer à sociedade e de exercer a cidadania.
O sistema de ensino em todos os níveis e modalidades obedece a uma legislação comum e estão estruturados a fim de se obterem objetivos nacionais. Por isso mantêm uma estreita relação entre si, de modo que o funcionamento de cada nível e modalidade de ensino afeta diretamente o outro. Assim, a qualidade ou não da educação infantil influenciará nos resultados do ensino fundamental, que por sua vez repercutirá no ensino médio, que afetará na performance do ensino superior. O desempenho do Ensino Superior também trará reflexos sobre a Educação Básica, este é o ciclo vicioso ou efeito dominó em que se dá a educação.
A educação infantil, em creche e pré-escola, é considerada a primeira etapa da educação básica, tendo como finalidade o desenvolvimento integral da criança até cinco anos de idade.
Diversos estudos demonstram que crianças que frequentam instituições de Educação Infantil, se desenvolvem melhor, tanto nos aspectos emocionais quanto no cognitivo e nas relações interpessoais. Permitir que as crianças tenham acesso, desde cedo a escola é a melhor forma de garantir a elas um futuro melhor.
Há uma dicotomia na Educação desde a educação infantil. A educação para a classe trabalhadora é sempre oferecida em doses homeopáticas: aquilo que o sujeito precisa saber para exercer sua função social, em especial a do trabalho, desde cedo, já existe uma predefinição dos papéis que cada indivíduo deverá ocupar na sociedade.
É claramente perceptível a distinção entre essa modalidade nos CMEIs (Centros Municipais de Educação Infantil) e nas redes privadas. A educação infantil que não alfabetiza é a do pobre. Nas entidades privadas é praticamente inaceitável que os filhos da elite terminem a pré-escola sem estarem alfabetizados, o que os coloca em vantagem pessoal e social em relação às crianças oriundas das classes menos favorecidas.  É preciso que os CMEIS promovam condições adequadas, essencialmente lúdicas, que respeitem o desenvolvimento e a aprendizagem da criança de forma natural e aproveitem também para alfabetizá-la.
A criança deve ser entendida como um sujeito ativo que interage com o mundo por meio de brincadeiras e principalmente como alguém com direito de viver sua infância. Estudos científicos comprovam que o brincar nos anos iniciais, contribui para a formação e expansão das redes de neurônios. A criança que brinca apresenta um desenvolvimento físico – motor, emocional, social e cognitivo superior as que foram restritas desse direito. Cabe à escola e a nós, educadores, recuperarmos a ludicidade infantil de nossos alunos, ajudando – os a encontrar um sentido para suas vidas.
O ensino fundamental é obrigatório e gratuito, inclusive para aqueles que a ele não tiveram acesso na idade própria. Tem duração de nove anos, sendo a matrícula obrigatória para todas as crianças com idade entre seis e 14 anos.
De acordo Art. 2º da Lei nº 9.394/96: “A educação, dever da família e do Estado, [...] tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
 É importante que o aluno desenvolva competências que lhe permitam compreender o mundo e atuar como indivíduo e como cidadão crítico e consciente. O sujeito que aprende é aquele que supera o estágio do senso comum (consciência ingênua) para a consciência crítica, domina solidamente os conteúdos e percebe-se determinado e, ao mesmo tempo, capaz de operar, conscientemente, a mudança da realidade.
No Brasil em pleno século XXI existem 13,9 milhões de brasileiros, com 15 anos ou mais, analfabetos. Num país com dimensões continentais nem sempre é fácil encontrar quem precise ser alfabetizado, a realidade mostra que o analfabetismo no Brasil alcança uma das maiores taxas mundial.
O adulto não é intencionalmente analfabeto e sim fruto das relações de trabalho, de poder e desenvolvimento da sociedade em que vive. Analfabeto, não é aquele que não sabe ler, mas aquele que devido as suas condições materiais de existência, não necessita fazer uso da leitura e da escrita. Analfabeto é aquele que o aumento do rendimento do seu trabalho independe da alfabetização. O sistema capitalista não desperdiça recursos com quem não precise educar. As causas de sua situação de atraso cultural e material são resultado das condições oferecidas pela sociedade na qual se encontra inserido.
Para combater o analfabetismo, é necessário que tanto o Governo Federal como estados e municípios priorizem o investimento na EJA (Educação de Jovens e Adultos). É preciso melhorar a infraestrutura da modalidade com a criação de mais centros de alfabetização.
De acordo com o Art. 35 da LDB 9.394/96 - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - o ensino médio, etapa final da educação básica, com duração mínima de três anos tem como finalidade a formação geral do aluno, bem como sua preparação básica para o trabalho e o exercício competente da cidadania, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico.
As experiências de separar o ensino médio entre cursos mais acadêmicos e cursos profissionais, orientados para o mercado de trabalho, costumam trazer um problema de difícil solução, que é a estratificação de prestígio e reconhecimento que se estabelece entre estes segmentos, com os mais pobres sendo canalizados para os cursos profissionais de menos prestígio e remuneração, enquanto que mais privilegiados permanecem nos cursos de formação geral e se preparam para entrar nas universidades.

A realidade tem nos mostrado que as crianças, em sua grande maioria, vão à escola, mas aprendem pouco, e começam a abandonar os estudos quando chegam à adolescência. Entre as razões para o abandono da escola estão: a necessidade de trabalhar para sobreviver, o horário inflexível,  a dificuldade ou perda de interesse, dificuldades em conciliar o trabalho e os estudos entre outros motivos.

Há também problemas sérios de relevância e conteúdo, além da precariedade e falta de estrutura que afetam, sobretudo, o ensino médio. O fato é que as escolas, mesmo na era da tecnologia e do conhecimento, insistem em querer ensinar utilizando-se de métodos arcaicos e medievais. As escolas não tem sido atrativas para nossos jovens e adolescentes, seus conteúdos são distantes e porque não dizer desconectados da realidade do aluno.  O ensino médio em sua grande maioria não tem conseguido cumprir o seu papel: preparar para a vida. Será que o aluno está realmente aprendendo o que precisa para aprimorar sua personalidade, viver em sociedade e participar do mercado de trabalho?
A pouca cobertura e a altas taxas de abandono no ensino médio fazem com que poucos, relativamente, cheguem ao ensino superior. O Brasil tem um sistema universitário bastante reduzido e elitista, em que pouco mais de 10% dos brasileiros conseguem terminar o ensino superior. A pequena expansão do ensino superior público tem abrindo espaço para o grande crescimento do ensino superior privado, de qualidade muito variada, e que já absorve cerca de 74% dos alunos matriculados e 89% das instituições de ensino superior do país.
Este tem sido o retrato da educação no Brasil - As famílias das classes média e alta colocam seus filhos em escolas particulares, que são geralmente de melhor qualidade, e os preparam para ingressar nas instituições de ensino superior de maior prestígio, públicas e gratuitas.
Estudantes de famílias mais pobres, negros ou brancos, quando chegam ao curso superior, só conseguem entrar para os cursos menos prestigiados das universidades públicas ou vão para as universidades particulares, nas quais têm de pagar.
Não podemos permitir que as diferenças se transformem em hierarquias de prestígio, benefícios e oportunidades. Políticas efetivas de redução das desigualdades educacionais causadas por diferenças de renda, região e cultura deveriam começar por capacitar as escolas públicas a educar de forma mais efetiva as crianças oriundas de famílias mais pobres.
O Brasil tem muito a aprender com os países que hoje são modelo em educação. Na Finlândia, Coreia do Sul, Irlanda e Chile, os estudantes passam o dia todo na escola - em média, nove horas, enquanto por aqui, a maioria dos alunos não fica mais de cinco horas por dia em aula. E isso, claro, interfere não só na qualidade da educação como também no desenvolvimento do país.
A escola em tempo integral ou educação integral traz a possibilidade de desenvolver os alunos de forma completa, em sua totalidade. Por meio de atividades extras, que juntem corpo, mente e alma, formando um ser integral.

Nem sempre as nossas crianças, jovens e adolescentes, especialmente os filhos da classe trabalhadora, tem a oportunidade de fazer cursos e atividades extracurriculares como balé, natação, música, xadrez, futebol, vôlei etc.

A escola em tempo integral propicia a ampliação do acesso de alunos e professores ao acervo e expressões culturais, pois possibilita o desenvolvimento de atividades culturais, a execução de projetos e oficinas em áreas como leitura, cultura digital, educação ambiental, artes visuais, artes cênicas, música, dança, cursos, oficinas, palestras, visitas guiadas e projetos dentro e fora da escola. Oferecendo aos alunos momentos de apreciação e fruição cultural. Além é claro de:  melhorar o rendimento escolar; suprir as necessidades extracurriculares dos alunos; dar tranquilidade aos pais que podem trabalhar sossegados sabendo que seus filhos não estarão sujeitos aos riscos sociais das ruas; favorecer um melhor aproveitamento do tempo ocioso; formar cidadãos melhores; possibilitar a orientação dos estudos e das tarefas; suprir carências de lazer, cultura e acesso à tecnologia. "As atividades após o período de aula contribuem para ampliar e diversificar os objetivos das aulas curriculares", afirma José Roberto Ramalho Pinto, coordenador pedagógico do Programa Sabin+Esporte&Cultura. O gestor do CEU Jaçanã, Jamir Cândido Nogueira, concorda. "A gente sente empiricamente que o rendimento dos alunos aumenta. Há melhora da concentração e no processo de aprendizagem."
Educação é um dos principais instrumentos de formação da cidadania. Educar, nessa perspectiva, é entender que direitos humanos e cidadania significam prática de vida em todas as instâncias de convívio social dos indivíduos. A construção da cidadania envolve um processo ideológico de formação de consciência pessoal e social e de reconhecimento desse processo em termos de direitos e deveres.
 Os cidadãos, numa democracia, não são apenas titulares de direitos já estabelecidos. Como cidadãos, todos têm o direito e o dever de acompanhar e participar da vida pública. A Cidadania ativa institui o cidadão como portador de direito e de deveres, mas essencialmente como criador de direitos de abrir espaços de participação, existindo, a possibilidade de expansão, de criação de novos direitos, de novos espaços, de novos mecanismos. Nessa óptica a Educação é vista como instrumento de emancipação política e sociocultural.
Partindo deste pressuposto, educar para a cidadania significa prover o indivíduo de instrumentos para a plena realização desta participação motivada e competente, desta associação entre interesses pessoais e sociais. Deste modo, escola cidadã é aquela que luta pela qualidade da educação para todos.
O profissional denominado professor é, naturalmente, de extrema importância para o futuro de nossa sociedade. É preciso valorizar esse profissional que há muito não recebe o devido reconhecimento, fazendo valer na prática o plano de carreira, o piso salarial, condições dignas de trabalho, aperfeiçoamento entre outros direitos garantidos na lei. O sucesso das demais profissões e do país em geral depende dos serviços prestados pelos professores.
 A educação não se restringe a escola e essa deve ser considerada como uma instituição inserida em um contexto histórico-social, comprometida com os problemas sociais. Deste modo a  Educação não pode ser somente preocupação, prioridade dos profissionais da educação e gestores públicos, mas de toda sociedade.
O leitor poderá achar que o panorama da educação brasileira apresentado neste artigo é demasiado sombrio e pessimista. Na verdade, este tom de crítica reflete o compromisso em fazer com que nossas escolas e universidades funcionem cada vez melhor, já que mesmo nos países mais educados e desenvolvidos, os debates sobre a educação continuam intensos. Se este artigo conseguir aumentar a intensidade e a qualidade dos debates sobre a educação no Brasil, seu objetivo terá sido cumprido.

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade,
sem ela tampouco a sociedade muda”. (Paulo Freire)

Roberta Monique
14/03/2012




terça-feira, 10 de janeiro de 2012

TARSILA DO AMARAL: vida e obra


       Tarsila do Amaral foi uma das principais representantes do movimento modernista brasileiro. Nascida em 1 de setembro de 1886, na Fazenda São Bernardo, em Capivari, interior de São Paulo, era filha de José Estanislau do Amaral Filho e de Lydia Dias de Aguiar do Amaral, e neta de José Estanislau do Amaral, cognominado “o milionário” em virtude da imensa fortuna acumulada em fazendas do interior paulista.
        Seu pai herdou a fortuna e diversas fazendas, onde Tarsila e seus sete irmãos passaram a infância. Desde criança, fazia uso de produtos importados franceses e foi educada conforme o gosto do tempo. Sua primeira mestra, a belga Mlle. Marie van Varemberg d’Egmont, ensinou-lhe a ler, escrever, bordar e falar francês. Sua mãe passava horas ao piano e contando histórias dos romances que lia às crianças. Seu pai recitava versos em francês, retirados dos numerosos volumes de sua biblioteca.
         Tarsila do Amaral estudou em São Paulo, em colégio de freiras do bairro de Santana e no Colégio Sion. E completou os estudos em Barcelona, na Espanha, no Colégio Sacré-Coeur.
        Ao chegar da Europa, em 1906, casou-se com o médico André Teixeira Pinto, seu noivo. Rapidamente o primeiro casamento da artista chegou ao fim. A diferença cultural do casal era grande. O marido se opunha ao desenvolvimento artístico de Tarsila, já que ele era conservador e para os homens da época, a mulher só deveria cuidar do lar. Revoltada com essa imposição absurda ela se separa e só conseguiu a anulação do casamento anos depois. Com ele teve sua única filha, a menina Dulce, nascida no mesmo ano do casamento. Tarsila se separou logo após a filha nascer e volta a morar com os pais na fazenda, junto de Dulce.
Começou a aprender pintura em 1917, com Pedro Alexandrino Borges. Mais tarde, estudou com o alemão George Fischer Elpons. Em 1920, viaja a Paris e frequenta a Academia Julian, onde desenhava nus e modelos vivos intensamente. Também estudou na Academia de Émile Renard.
Apesar de ter tido contato com as novas tendências e vanguardas, Tarsila somente aderiu às ideias modernistas ao voltar ao Brasil, em 1922. Numa confeitaria paulistana, foi apresentada por Anita Malfatti aos modernistas Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia. Esses novos amigos passaram a frequentar seu atelier, formando o Grupo dos Cinco (Arte Moderna Brasileira).
Em janeiro de 1923, na Europa , Tarsila se uniu a Oswald de Andrade e o casal viajou por Portugal e Espanha. De volta a Paris, estudou com os artistas cubistas: frequentou a Academia de Lhote, conheceu Pablo Picasso e tornou-se amiga do pintor Fernand Léger, visitando a academia desse mestre do cubismo, de quem Tarsila conservou, principalmente, a técnica lisa de pintura e certa influência do modelado legeriano.
Em 1924, em meio à uma viagem de "redescoberta do Brasil" com os modernistas brasileiros e com o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, Tarsila iniciou sua fase artística “Pau-Brasil”, dotada de cores e temas acentuadamente tropicais e brasileiros, onde surgem os "bichos nacionais"(mencionados em poema por Carlos Drummond de Andrade), a exuberância da fauna e da flora brasileira, as máquinas, trilhos, símbolos da modernidade urbana.
Casou-se com Oswald de Andrade em 1926 e, no mesmo ano, realizou sua primeira exposição individual, na Galeria Percier, em Paris. Em 1928, Tarsila pinta o Abaporu, cujo nome de origem indígena significa "homem que come carne humana", obra que originou o Movimento Antropofágico, idealizado pelo seu marido.
A Antropofagia propunha a digestão de influências estrangeiras, como no ritual canibal (em que se devora o inimigo com a crença de poder-se absorver suas qualidades), para que a arte nacional ganhasse uma feição mais brasileira.
Em julho de 1929, Tarsila expõe suas telas pela primeira vez no Brasil, no Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, em virtude da quebra da Bolsa de Nova York, conhecida como a Crise de 1929, Tarsila e sua família de fazendeiros sentem no bolso os efeitos da crise do café e Tarsila perde sua fazenda. Ainda nesse mesmo ano, Oswald de Andrade separa-se de Tarsila porque ele se apaixonou e decidiu se casar com a revolucionária Patrícia Galvão, conhecida como Pagu. Tarsila passa a sofrer demais com a separação e por perder sua fazenda, e se entrega ainda mais a seu trabalho no mundo artístico.


Em 1930, Tarsila conseguiu o cargo de conservadora da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Deu início à organização do catálogo da coleção do primeiro museu de arte paulista. Porém, com o advento da ditadura de Getúlio Vargas e com a queda de Júlio Prestes, perdeu o cargo.
Em 1931, vendeu alguns quadros de sua coleção particular para poder viajar à União Soviética. Nessa época Tarsila viaja com seu novo marido, o médico nordestino Osório César, que a ajudaria a se adaptar às diferentes formas de pensamento políticos e sociais. O casal viajou a Moscou, Leningrado, Odessa, Constantinopla, Belgrado e Berlim. Logo estaria novamente em Paris, onde sensibilizou-se com os problemas da classe operária. Sem dinheiro, trabalhou como operária de construção, pintora de paredes e portas. Logo consegue o dinheiro necessário para voltar ao Brasil, pois com a crise de 1929 ela perdeu praticamente todos os seus bens e sua fortuna.
No Brasil, por participar de reuniões políticas de esquerda e pela sua chegada após viagem à URSS, Tarsila é considerada suspeita e é presa, acusada de subversão. Em 1933, ao pintar o quadro “Operários”, a artista passa por uma fase de temática mais social, da qual são exemplos as telas Operários e Segunda Classe. Em meados dos anos 30, o escritor Luís Martins, vinte anos mais jovem que Tarsila, passa a ser seu companheiro constante, primeiro de pinturas depois da vida sentimental. Ela se separa de Osório e se casa com Luís Martins, com quem viveu até os anos 50.
A partir da década de 40, Tarsila passa a pintar retomando estilos de fases anteriores. Expõe nas 1ª e 2ª Bienais de São Paulo e ganha uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) em 1960. É tema de sala especial na Bienal de São Paulo de 1963 e, no ano seguinte, apresenta-se na 32ª Bienal de Veneza.
Em 1965, separada de Luís e vivendo sozinha, foi submetida a uma cirurgia de coluna, já que sentia muitas dores, e um erro médico a deixou paralítica, permanecendo em cadeira de rodas até seus últimos dias.
Em 1966, Tarsila perdeu sua única filha, Dulce, que faleceu de um ataque de diabetes, para seu desespero. Nesses tempos difíceis, Tarsila declara, em entrevista, sua aproximação ao espiritismo.
A partir daí, passa a vender seus quadros, doando parte do dinheiro obtido a uma instituição administrada por Chico Xavier, de quem se torna amiga. Ele a visitava, quando de passagem por São Paulo e ambos mantiveram correspondência.
Tarsila do Amaral, a artista-símbolo do modernismo brasileiro, faleceu no Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, em 17 de janeiro de 1973 devido a depressão. Foi enterrada no Cemitério da Consolação de vestido branco, conforme seu desejo.

Características de suas obras

- Uso de cores vivas
- Influência do cubismo (uso de formas geométricas)
- Abordagem de temas sociais, cotidianos e paisagens do Brasil- Estética fora do padrão (influência do surrealismo na fase antropofágica)


                                                                                                                                                                                                                                    






CHAPÉU AZUL (1922) - Esta tela foi realizada depois de Tarsila frequentar o ateliê de Emile Renard. As telas dessa época possuem uma grande suavidade e uma atmosfera lírica.






A Negra (1923) - Esta tela foi pintada por Tarsila em Paris, enquanto tomava aulas com Fernand Léger. A tela o impressionou tanto que ele a mostrou para todos os seus alunos, dizendo que se tratava de um trabalho excepcional. Em A Negra temos elementos cubistas no fundo da tela e ela também é considerada antecessora da Antropofagia na pintura de Tarsila. Essa negra de seios grandes fez parte da infância de Tarsila, pois seu pai era um grande fazendeiro, e as negras, geralmente filhas de escravos, eram as amas-secas, espécies de babás que cuidavam das crianças.






 


MANTEAU ROUGE (1923) - Em Paris, Tarsila foi a um jantar em homenagem a Santos Dumont com esta maravilhosa capa (Manteau Rouge, em francês, significa casaco, manto vermelho). Além de linda, usava roupas muito elegantes e exóticas, e sua presença era marcante em todos os lugares que freqüentava. Depois desse jantar, pintou este maravilhoso auto-retrato.












Carnaval em Madureira (1924) - Tarsila veio de Paris e passou o carnaval de 1924 no Rio de Janeiro. É curioso ver que ela colocou a famosa Torre Eiffel no meio da favela carioca.






A Cuca (1924) - Tarsila pintou este quadro no começo de 1924 e escreveu à sua filha dizendo que estava fazendo uns quadros "bem brasileiros", e a descreveu como "um bicho esquisito, no meio do mato, com um sapo, um tatu, e outro bicho inventado". Este quadro é também considerado um prenúncio da Antropofagia na obra de Tarsila e foi doado por ela ao Museu de Grenoble na França.





EFCB (Estação de Ferro Central do Brasil, 1924) - Este quadro foi pintado depois da viagem a Minas Gerais com o grupo modernista. Foi então que Tarsila começou a pintura intitulada Pau-Brasil, com temas e cores bem brasileiros. Esta tela foi pintada para participar da exposição-conferência sobre modernismo do poeta Blaise Cendrars realizada em São Paulo, em junho de 1924.







O Pescador (1925) - Este quadro tem um colorido excepcional e trata de um tema bem brasileiro: um pescador num lago em meio a uma pequena vila com casinhas e vegetação típica. Este quadro foi exposto em Moscou, na Rússia em 1931 e foi comprado pelo governo russo.
















Manacá (1927) - Linda tela, com um colorido forte. Esta flor é representada por Tarsila de uma maneira particular, bem típica da obra dela









 







Religião Brasileira (1927) - Certa vez Tarsila chegou de viagem da Europa, desembarcou no porto de Santos e foi comprar doces caseiros em uma casinha bem simples de pescadores. Ao entrar observou um pequeno altar com vários santinhos, enfeitados por vasinhos e flores de papel crepom. Achou aquilo tão pitoresco e pintou esta maravilhosa tela.












Cartão Postal (1928) - Vemos a lindíssima cidade do Rio de Janeiro nesta tela, que é o maior Cartão Postal do Brasil. O macaco é um bicho Antropofágico de Tarsila que compõe a tela.












A Lua (1928) - Este quadro era o preferido de Oswald de Andrade, seu marido quando pintou a tela. Ele conservou o quadro até sua morte (mesmo já separado de Tarsila).





 

Abaporu (1928)- Este é o quadro mais importante já produzido no Brasil. Tarsila pintou um quadro para dar de presente para o escritor Oswald de Andrade, seu marido na época. Quando viu a tela, assustou-se e chamou seu amigo, o também escritor Raul Bopp. Ficaram olhando aquela figura estranha e acharam que ela representava algo de excepcional. Tarsila lembrou-se então de seu dicionário tupi-guarani e batizaram o quadro como Abaporu (o homem que come). Foi aí que Oswald escreveu o Manifesto Antropófago e criaram o Movimento Antropofágico, com a intenção de "deglutir" a cultura européia e transformá-la em algo bem brasileiro. Este Movimento, apesar de radical, foi muito importante para a arte brasileira e significou uma síntese do Movimento Modernista brasileiro, que queria modernizar a nossa cultura, mas de um modo bem brasileiro. O "Abaporu" foi a tela mais cara vendida até hoje no Brasil, alcançando o valor de US$1.500.000. Foi comprada pelo colecionador argentino Eduardo Costantini.






O Lago (1928) - Maravilhosa tela da fase Antropofágica, com o colorido e o tema tão típicos de Tarsila. Seu sobrinho Sérgio comprou a tela e permaneceu com ela por muitos anos.











O Ovo ou Urutu (1928) - Nesta tela temos símbolos muito importantes da Antropofagia. A cobra grande é um bicho que assusta e tem um poder de "deglutição". A partir daí, o ovo é uma gênese, o nascimento de algo novo e esta era a proposta da Antropofagia. Esta tela pertence ao importante acervo de Gilberto Chateaubriand e está sempre sendo exibida em grandes exposições






Antropofagia (1929) - Nesta tela temos a junção do "Abaporu" com "A Negra". Este aparece invertido em relação ao quadro original. Trata-se de uma das telas mais significativas de Tarsila e o colecionador Eduardo Costantini, dono do "Abaporu", está muito interessado no quadro e já ofereceu uma soma muito alta por ele (que foi recusada pelos atuais donos).



 



A pintora Tarsila do Amaral expressa o mundo do trabalho: um grande número de rostos colocados lado a lado,todos sérios; nenhum sorriso, pois a preocupação não deixa lugar para a alegria. São pessoas que nos olham fixamente como a nos lembrar que é duro o trabalho nas fábricas, presentes na obra sob a forma de um prédio austero e chaminés cinzentas. A obra é um raro exemplo da etnia brasileira. Por isso foi escolhida para representar os museus frente ao diálogo intercultural, do pluralismo de ideias, do desenvolvimento humano e do respeito à diversidade.

 O quadro Operários foi pintado em um momento em que Tarsila esteve ligada politicamente ao comunismo. No início dos anos 30 Tarsila esteve na União Soviética e participou de reuniões do Partido Comunista Brasileiro. Nesta época, a política e a temática do trabalho fizeram-se presentes em duas de suas obras: Operários e Segunda Classe (1933). Ambas as telas ilustram o momento politico e social brasileiro do início dos anos 30: industrialização, migração de trabalhadores, consolidação do capitalismo industrial e de uma classe de trabalhadores marginalizada e explorada.



SEGUNDA CLASSE (1933) O quadro de Tarsila do Amaral acima é um retrato do conjunto de operários das fábricas brasileiras. Os rostos sobrepostos remetem à massificação do trabalho e às condições de vidas nas cidades. Estão representadas diversas etnias, fazendo referência à migração de diferentes locais do Brasil e do mundo para as metrópoles. A expressão dos operários representados é de tristeza, indiferença, cansaço. Representam as péssimas condições de trabalho a que estão submetidos, e a falta de perspectivas que predomina no contexto de opressão da chamada “Era Vargas”. O quadro, juntamente com “Segunda Classe”(ao lado), é uma expressão do crescimento capitalista no Brasil e do preço pago pelos trabalhadores para que seu êxito fosse garantido.






Fonte: www.pitoresco.com.br
           www.dec.ufcg.edu.br